domingo, 21 de agosto de 2011

Para os alunos de Hebraico - Um pouco sobre a letra Aléf


Faz algum tempo, o professor de Hebraico Erike C. Lourenço começou a escrever uma série com o significado das letras hebraicas. Nesta oportunidade publicamos um de seus posts sobre a letra Aléf. Esperamos que gostem. No final segue o link para o blog do Erike.

Alef - Parte I

Estive pensando sobre a letra Aléf, sobre seu significado profundo e interessante. Antes, porém, pesquisei mais um pouco, e descobri coisas que estavam além do que eu poderia imaginar... Aí, decidi escrever algo aqui sobre ela. Na verdade, estou pensando em falar sobre todas as letras do alfabeto hebraico, pois cada letra tem seu próprio significado.
Primeiro, ela é a primeira das letras hebraicas. Seu nome deriva de um termo hebraico, élef, que significa "boi treinado". No hebraico bíblico mais "comum" e no moderno, esta mesma palavra significa "mil", "milhares". Mas, num significado bíblico preservado somente em alguns versículos, significa justamente isso: boi treinado (domesticado pelo homem e treinado para auxiliá-lo em seu labor no campo).

Podemos ver este significado em Dt 7:13: "E amar-te-á, e abençoar-te-á, e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, o teu grão, e o teu mosto, e o teu azeite, e a criação das tuas vacas, e o rebanho do teu gado miúdo, na terra que jurou a teus pais dar-te" (ACF). Infelizmente, o grifo acima é a tradução da expressão שגר אלפיך - sh'gar 'alafeicha - que realmente significa "os filhotes dos teus bois", como o Targum Pseudo-Ionatan traduz (בקרת תוריכון - bakarat toreichon - "o gado de seus bois").

Mas voltando a letra Álef...
Sua forma primitiva se parecia com uma cabeça de boi. A partir dela, a letra evoluiu para o nosso A uncial romano. Não se sabe o porquê dos semitas terem tomado simbolos, como a cabeça de um boi, para representar sons como do Álef (pois é! o Álef tinha som no passado... era uma pausa na fala feito pela glote, que hoje se perdeu), seu significado como formador de morfemas nas palavras e, enfim, gerador de palavras (pois a palavra Álef tem um verbo associado a ela, אילף - 'ilef - que significa "ensinar, instruir" - origem compreensível - e, como dito, o número "mil" - אלף - élef - significado incompreensível).

A origem destas letras também é um mistério. Alguns dizem que são de origem própria, isto é, os semitas que criaram a partir de suas próprias vivências. Outros dizem que é de origem egípcia (dentre outros motivos, está a descoberta de inscrições em proto-semítico, numa pequena esfinge, nos arredores do Mt. Sinai (Serabit El-Khadim) datadas de cerca 1500 a.C., possuindo fortes alusões egípcias. Outros alegam ainda uma origem mesopotâmica, apartir do sumério antigo ou acadiano, ou algo assim. Sustento a opinião de que estas letras são criação dos próprios semitas, possivelmente influenciados pelo caráter (já) milenar destas línguas citadas (egípcio, acadiano e sumério) de possuir símbolos derivados de objetos da realidade do dia-a-dia de seus falantes, que formavam palavras que significavam inicialmente aqueles objetos e que, por analogia mais posteriormente, acabaram também significando palavras mais abstratas ou verbos que tivessem relação com este signo inicial (como o desenho de uma boca para significar "boca", ou casa para significar "casa" em egípcio, e que, posteriormente, estavam incluidos também em verbos como "falar" e "habitar", por exemplo).

Não creio que os semitas, ou os hebreus, tivessem tomado os símbolos monoliterais ou biliterais egípcios para transformá-los em suas letras semitas, pois não há semelhança alguma entre aquelas equiparando-se a estas. Por exemplo, o signo de um falcão egípcio, que é o mais próximo do Álef semita, não se parece de forma alguma com a cabeça de boi da qual o Álef se derivou, em seus primórdios. E, como isso ocorre com outras letras semíticas e seus correspondentes egípcios, discordo desta derivação direta vinda do país do Nilo, como alguns alegam. Mas concordo que possa ter havido influências, ao menos...

Voltando ao Álef hebraico...
Além daqueles significados ditos acima, há ainda um terceiro: chefe, príncipe. Uma palavra idêntica ao nome Álef mas de pronúncia ligeiramente diferente nos mostra isso - אלף - aluf. Ela se encontra em vários lugares da Bíblia Hebraica, como em Genesis 36:15: "Estes são os príncipes (אלופי - alufei) dos filhos de Esaú: os filhos de Elifaz, o primogênito de Esaú, o príncipe Temã, o príncipe Omar, o príncipe Zefô, o príncipe Quenaz".
Por que estou levando vocês por todo este caminho até aqui, passando por todos estes significados? Para mostrar que podemos compreender o hebraico, ainda hoje, como aquela espécie de "língua hieroglífica" do passado proto-semítico, onde signos representando algo da realidade se aglomeravam para formar os nomes destes objetos, ou de seres e conceitos diversos, relacionados à própria letra e ao nome dela.
Exemplo prático? vamos lá então. Álef significa "boi"... um animal forte (talvez o mais forte dentre os domésticos)... "chefe" (guia, amigo - Pv 16:28) e algo relacionado à "instrução" (ensino, treinamento). Acabei de mostrar o significado exato da palavra "Álef".
Vejamos... Álef se escreve exatamente como as palavras dos significados que vimos acima, אלף . Esta palavra é formada por 3 letras hebraicas: א - Álef, ל - Lámed e פ - Pêh. Aléf significa apriori "chefe", "forte". Lámed significa "cajado", "direção", "guia". Pêh significa "boca, fala, ensino" (veremos mais a fundo estas letras no devido tempo). Juntando... "o chefe (ou algo ou alguém forte) que guia na direção, ensinando". Por isso uma de suas traduções é "amigo". Mas... forte este significado não acha? Parece uma descrição aplicada ao próprio Deus...
Pois é... não é em vão que a palavra para deus ou Deus em hebraico seja אל -êl, só faltando o Pêh final. Este significado de "deus" vem de outro significado desta palavra, "forte" (que é usada em Sl 29:1). O Álef do hebraico atual tem a forma que deriva de uma evolução das letras hebraicas apartir do aramaico, idioma falado na Babilônia, na época do exílio do povo judeu para lá, no séc. VI a.C. Estas formas do hebraico são denominadas "assírias" (por causa da relação Assíria-Babilônia na época) ou "quadráticas", por causa da forma das letras, como se estivessem "encaixotadas". Mas, não é por ter uma forma mais "posterior" que o Álef parou de ser interpretado pelos judeus.

No Talmud está escrito que o Álef seria formado, na verdade, por dois "Yod"s (um por cima e outro por baixo) e uma letra "Vav" no meio, na diagonal, unindo estes "Yod"s. Ele continua afirmando que o Yod de cima representa Deus (o Tetragrama começa com esta letra). O Yod de baixo, Israel (que também se inicia com esta pequena letra, no hebraico). E o Vav, que representaria a Torá, se encontra no meio destes dois (Deus e Israel), une-os. Interessante notar que interpretações de tradições mais místicas do judaísmo (Zohar 73a) afirmam que "estes três níveis estão unidos um ao outro: o Santo, Israel e a Torá". Interpreta-se que este dito seja uma referência ao Álef. Isso porque, no original, foram usadas as palavras קודשא -kodsha, para "o Santo"; ישראל - Israel, para "Israel"; e אורייתא - oráiyta- para "Torá". Estas três palavras se iniciam com ק (Qof), י (Yod) e א (Aléf), que, somando seus valores númericos (em um processo que denomina-se Guematria), resulta no valor 111, que é exatamente o valor de cada letra que forma a palavra “Álef” (אל"פ ). Seria uma alusão ao dito talmúdico visto acima? Provavelmente sim...

O melhor disso tudo é que sabemos que Jesus disse que Ele é o “Alfa e o Ômega” (Ap 22:13). O “Alfa” grego, aqui, nos remete ao Álef  hebraico, correto? Partindo deste pressuposto, podemos relacionar o que se interpretou no meio judaico sobre o Álef com o próprio Messias. Paulo diz que Ele é o Mediador entre Deus e os homens (I Tm 2:5). Ele seria o “Álef” por excelência, já que Ele, Filho de Deus, o Logos que esteve no sei de Deus, o Pai (o “Yod” de cima, na letra Álef), desceu à Terra, para habitar entre nós, homens (o “Yod” de baixo, na letra Álef), encarnando, tomando a forma de homem como nós, de servo, cumprindo sua missão aqui até o fim, para ser constituído por Deus como o Mediador (o Vav mediano do Álef) de uma Nova Aliança com Israel e, por conseguinte, com o mundo, sendo Ele mesmo a Paz entre nós e Deus (Fp 2:5-6). Sabemos que, apesar dessa língua ser uma língua totalmente humana (o próprio Talmud babilônico afirma isso, quando diz que “a Torá foi dada na língua dos homens” – Berachot 31b), não é por isso que ela deixou de conter elementos da revelação de Deus ao Seu povo Israel e à humanidade. Deus se utiliza de nossa própria humanidade, nossas fraquezas e sucessos, para mostrar o quanto precisamos Dele e de Seu poder atuando em nós (II Co 12:9).

Espero que tenham gostado deste post... acrescentei no título um “I” para indicar que ainda não acabou... mesmo que eu venha comentar de outras letras, voltarei quando convir acrescentando algo a mais sobre o Álef... sendo assim também com outras letras...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Dialogue - 18 de agosto - Erike Couto - Aguardamos você!

Teremos mais um Dialogue no dia 18 de agosto, às 19:30 horas aqui no Abba.
Desta vez o Erike Couto Lourenço vai estar ministrando e depois disso abriremos para perguntas.

O tema será: 
O PRÓLOGO DE JOÃO
Interpretação do prólogo de João conforme contexto judaico

Venha bater um papo com a gente e desfrutar de um gostoso momento de comunhão depois.
Te esperamos!

Confirme sua presença pelo 31 2512-8969.