segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma das faces da missão

Eu não sei muito bem o que as pessoas pensam ser "missão". Acredito que elas estão confusas com muitas definições e conceitos e nem se dão conta de parar e perguntar pra si mesmas "ei, o que é mesmo missão?". Abaixo segue uma carta, que acabou virando um post de uma ex-aluna nossa, hoje nos Estados Unidos, se preparando para ir até a África onde prestará serviços humanitários. Vejam só:

Quero Domir


Não sei bem o que se passa na cabeça das pessoas.. mas as vezes tenho muita curiosidade de saber, de verdade, para pelo menos tentar entender um pouco porque ninguem disconfia quando está fora da casinha….
Hoje foi mais um daqueles dias terrivelmente cansativos e pra deixar mais difícil eu não consegui a meta… Tudo que eu queria agora era um cantinho pra deitar e dormir, quem sabe com isso descansaria pra pelo menos amanhã as forças estarem renovadas para poder durar em mais um dia de árduo trabalho debaixo de um terrível frio sem o conforto de descansar as pernas ao menos de vez em quando… Mas tudo que temos disponível é uma casa cheia de pessoas sem preocupação se vão ou não levantar amanhã para fazer qualquer coisa, e por ser assim, também não se preocupam se todos concordam em ficar acordados fazendo uma festa sem razão apenas pra beber ao som de músicas bem badaladas, rir alto e conversar quase que gritando, sem falar na imensa fumaça da maconha que paira por todo ambiente… Entra e sai gente como num bar da esquina, até cachorro tem seu espaço.. Cada pessoa que chega tem seu sinal e marca o lugar de forma bastante personalizada…
Se eu pudesse entraria para um quarto, fecharia a porta, apagaria a luz, e apagaria no sono… Mas pra isso, eu precisaria ter o quarto… Como isso é totalmente impossível, posso contar o tempo ou esquece-lo, o que torturar menos ta valendo.. pois com certeza, a madrugada conhecerá os meus olhos hoje, pois esses não se fecharão tão cedo, apesar de quererem muito….
Estou em Boston, em mais uma viagem de ‘fundraising’… Esperamos que seja essa a útima viagem da equipe para isso, se viajarmos depois, que seja apenas para passear ou então para ir para a Africa.. Faltam pouquissimos dias… Em menos de dois meses estaremos descobrindo um novo mundo, uma nova realidade, um novo grupo de pessoas, novas identidades, novas formas de ver a vida e de vive-la… Estou bastante curiosa para conhecer as pessoas que farão parte da minha história na Africa. Tenho grandes espectativas nesse desconhecido que se aproxima… Tenho certeza que serei muito impactada com a cultura africana.. estou totalmente disposta a viver detalhes em toda sua intensidade, sem fazer bicos, caras, vistas… não quero limitar as minhas possibilidades, o que eu puder conhecer estarei lá para isso fazer, experimentar o que estiver a mão e me assegurar de que não me arrependerei de não ter aproveitado o tempo para viver…
Bom… enquanto a Africa não chega, vou vivendo as experiências que os EUA tem me proporcionado… Aqui mais do que esperava, o choque cultural também está bem aflorado, não pelo país em si, mesmo que esse colabore, mas principalmente pelas pessoas que aqui estão, que são de diferentes culturas.. Aqui é um país extremamente misto mesmo que as pessoas daqui não gostem. A realidade é que todas as culturas são possíveis de serem encontradas neste lugar.. se vê de tudo um pouco… e confesso, nem sempre é tão divertido quanto parece.. Principalmente quando se trata de comunicação. O inglês vira uma bagunça de sotaques, e se você não sabe bem essa língua sofre uma tortura de linguagens confusas tentando passar informações que por não se entenderem ficam trocadas e truncadas…
Mas, o bom de tudo isso, é que você sempre terá histórias para contar… engraçadas ou não, é fato, elas estarão ali, disponíveis para serem ouvidas… ou lidas…srsrsr
Eu num disse? Olha aqui a hitória hehehe.. nem mudei a data pra não confundir.. ela é o que ontem eu tinha perdido.. hehe…
Gente, nada melhor que um pouco de sossego… fala sério.. Deus é muito bom. Hoje estamos no conforto de um hotel, na tranquilidade de ter tudo pago, pelos irmãos da Assembléia de Deus que, com muito carinho, desde que souberam do nosso trabalho, nos abraçou e tem cuidado de nós. Ficaremos aqui até o último dia do nosso fundraising aqui em Boston, incluindo um despreocupante café da manhã para todos os dias e com a certeza de que poderemos dormir, sem ter que esperar o dia amanhecer, com o simples mas importante detalhe de um ambiente escurinho e silencioso… e ainda poder ter a noite toda de descanço, livre, para nossa paz.. Agora, podemos voltar no fim do dia e relaxar, sem ter que esperar que apareça um cantinho pra podermos sentar, sem aquele cheiro horrível da maconha e sua fumaça intoxicante, sem o barulho ensurdecedor da mistura de música alta com conversas e risadas tão altas quanto e sem as manias chatas do efeito do álcool dos que bebiam  pela noite a fora…  o ambiente é super agradável! A cama é uma delicia, de tão confortável parece abraçar a gente, tornando até difícil livrar-nos dela no dia seguinte srsrsrsr… um banheiro limpinho com um choveiro perfeito e um secador básico para nós mulheres que tanto precisamos secar os cabelos principalmente nesse frio, que não dá mesmo pra ficar com eles molhados… Como estávamos precisando disso.. Deus é muito, muito bom meeesmo.. Pude enfim lavar o meu cabelo, ô maravilha!! Já não aguentava mais srsrsr … e amanhã pretendo lavar as roupithas, claro, tudo limpinho para o conforto ficar completo. É como disse a Clarissa, minha colega de equipe: ”parece viagem de passeio” srsrsr.. Estamos nos sentindo.. hehehe
O dia foi tranquilo, fez menos frio que ontem, aliás acho que de toda a semana foi o dia menos frio até agora. Fiquei trabalhando em um lugar super agradável também, as pessoas de lá cuidaram super bem de mim. Tive um cafezinho delicioso logo pela manhã, mais tarde um maravilhoso caldo de galinha e ainda consegui doação de lanches para todas as próximas noites que ainda temos por aqui.. Fala aí se Deus não é bom… Ele é maravilhooooso… Meu lindo!!!
Agora está faltando muito pouco pra completar o valor que precisamos, estou quase batendo minha meta de $ 6000 … Mal consigo acreditar… Confesso que não gosto nem um pouco dessa história de fundraising, é muito ruim meeeesmo de fazer isso, ninguém merece. A gente se cansa muito, o stress vai a pico, a paciência deixa de existir e a tolerância? O que é isso mesmo? A gente perde os rumos com muita facilidade, é preciso muito equilibrio pra não causar danos mais graves que pequenas discursões no grupo. As vezes a vontade que dá é de largar tudo e voltar. Ficamos a todo tempo nos perguntando: ‘vale a pena?’…  Isso falo obviamente como um ser humano que se colocou a disposição de um trabalho voluntário quando poderia estar construindo algo rentável com excelente retorno financeiro, ou talvez não, mas que pelo menos poderia estar trabalhando por salário, e ao fim do mês ter algum dinheiro para comprar ao menos um chocolate, ou a roupa que viu na loja ou simplesmente fazer um lanche sem culpa de quanto terá que pagar por ele.
Mas quando tratamos de falar de ministério, chamado, missão.. os pensamentos não mudam, pois não se deixa de ser humano só porque foi chamado por Deus para uma missão específica. O que acontece é que a motivação é forte o suficiente, ou pelo menos precisa ser, para nos ajudar a superar essas dificuldades que o dia a dia apresenta. Afinal, não é fácil pra ninguém ficar em pé por 20hr, ou ficar exposto a um frio de 5ºC  negativos por horas infinitas (já que o tempo não passa nesse tipo de situação). A questão é saber o quanto se está realmente disposto a viver superações… A pressão psicológica é a pior de todas as torturas.. vencer isso é a maior de todas as superações que se possa alcançar. A própria dor que sentimos no corpo ou o cansaço do dia, pressiona a nossa mente e fica martelando a mesma idéia ou o mesmo questionamento: ‘vale a pena?’ … várias e várias vezes nos perguntamos o que nos impulsiona a permanecer aqui… quando não sentimos os dedos das mãos e nem sentimos os pés, mas sentimos que tudo dói tanto que lateja, e que o nariz começa a queimar e fica dormente a ponto de ferir e sangrar por tanto frio que estamos sentindo, os nervos do corpo se contraem e ainda vem aquele vento absurdamente gelado pra completar a parte da pele que ainda nao tinha nos irritado de arrepios, e passa uma pessoa, a quem nos dirigimos para falar do projeto, e ela simplesmente nos ignora, quando não nos trata com arrogancia ou ainda acha de falar algum palavrão ou xingar o nosso trabalho, aí não tem ser humano que não se corroa de raiva por dentro, principalmente porque só podemos ver, ouvir e deixar ir embora, não podemos dizer nada.
Mas as coisas são assim, a gente sente dor pra crescer, sofre pra amadurecer e se esforça pra sobreviver… No fim, agradecemos por ter vivido tudo isso… pois foi ou é o que faz do que somos ou éramos algo melhor e mais forte, tornando-nos pessoas realmente capazes de experimentar níveis mais altos da vida…
Elinis Lima dos Santos formada pelo Seminário Teológico Carisma e pelo Instituto Abba, hoje nos Estados Unidos, em treinamento para trabalhar com ajuda humanitária na África.

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