quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Texto Base Dialogue 19/01 por Erike Couto (post do blog dele - kakatuv)

"O Maná do Reino do Amanhã dai-nos hoje..."

Eis a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos em Mateus 6:9-13:

"Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém." (Mt 6:9-13)

Refletindo sobre esta simples, porém profunda, oração que Jesus nos instruiu, foquei-me na seguinte passagem em específico:

"[...] o pão nosso de cada dia dai-nos hoje [...]" (Mt 6:11)

Lembrei-me então de algumas coisas que envolvem este verso no original grego. Lá, a expressão "o pão nosso de cada dia" é τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον (tòn árton hemerôn tòn epiúsion). A palavraepioúsion, que está no acusativo da forma nominal epiousia, é muito rara, sendo unicamente encontrada no Novo Testamento, mas em nenhum outro manuscrito grego antigo. No escritos neo-testamentários, ela se encontra em duas passagens, esta do Evangelho de Mateus e outra no de Lucas 11:13, em outro relato desta oração feita por este evangelista. Ela é composta por dois morfemas,epi, "sobre, acima" e ousia, "ser, essência, existência". Uma outra tradução poderia ser, consequentemente, "o pão nosso de (para nossa) existência (ou sustento)". A palavra ousia é raramente usada no grego antigo, e mesmo assim é restrita aos círculos da filosofia da Antiga Hélade. Para queesta difícil palavra possa ser corretamente traduzida, algumas traduções podem lançar alguma luz. 

Pai Nosso em Hebraico nas paredes do Monastério Pater Noster, em Jerusalém.
  • Traduções já feitas

Peshitta, a tradução para o aramaico siríaco do Novo Testamento, em sua versão padronizada, a traduziu como ܕܣܘܢܩܢܢ d'sunqanan,que significa "de nosso sustento". Mas, a versão achada no códexcuretoniano, tem ܐܡܝܢܐ ܕܝܘܡܐ  , amina d'yawma, "(o pão) permanente do dia", em Mateus. Na Vulgata, Jerônimo traduz a palavra epioúsia em sua literalidade grega, supersubstantialem, que significa "mais que o necessário, o fundamental". Mas, por alguma razão, ele traduz o mesmo termo, quando este aparece em Lucas, como quotidianum, "diário".  

Se tomarmos mais uma referência em uma antiga tradução da Bíblia, a efetuada para o cópta (língua egípcia, em seu último estrato linguístico, escrita em caracteres derivados do grego antigo), teremos um significado um pouco diferente. A difusão desta tradução presume-se já ter sido efetuada desde o séc. II, portanto é muito antiga. Nela, temos penoeik etnhy, "o pão nosso (do dia) que virá".

  • Comentário de Jerônimo sobre o Pai Nosso

Para complicar mais ainda a situação, o famoso tradutor da versão latina que citei acima, a Vulgata, em um relato que se encontra em comentário seu sobre  o Evangelho de Mateus, ele diz o seguinte:

"No Evangelho que é chamado 'dos Hebreus', no lugar de 'pão supersubstantialem', eu achei mahar, que significa 'de amanhã', podendo significar o seguinte: nosso pão que era para amanhã, isto é, o futuro, dai-nos neste dia" (Sobre Mateus I, comentário sobre Mt 6:11)

Este Evangelho dos Hebreus foi o provável evangelho utilizado (segundo Jerônimo, em "hebraico") por uma comunidade de judeus cristãos que habitavam a Terra Santa. No relato acima, ele diz que a palavra usada por Jesus para epioúsia seria mahar. Essa palavra, provavelmente, seria uma transcrição para o latim da hebraica מחר,mahar, que significa "amanhã, dia posterior a hoje". É muito estranho ele ter dito que esta seria a palavra original do Mestre pois aparentemente o seu significado é totalmente diferente daquele presente na palavra em grego que possuímos. Mas na verdade, a solução - segundo Joachim Jeremias, em seu livro Teologia do Novo Testamento - se encontra sim nesta palavra hebraica/aramaica citada por Jerônimo. Ele afirma que existe um adjetivo, ἡ ἐπιοῦσα (he epioôsa), que na verdade é derivado de epiousia. Mas, este adjetivo significa "(o dia) que vem, o amanhã". Ele conclui, portanto, que o nome epioúsia em Mateus e Lucas, na verdade, seria a tentativa de traduzir a palavra mahar "amanhã", tendo-se em mente a prévia tradução deste termo hebraico, na Septuaginta, pelo mesmo adjetivo grego, epioûsia.

"São Jerônimo estudando", afresco de Domenico Ghirlandaio (1480)
Joachim Jeremias observa ainda que, mesmo se pensarmos que oEvangelho dos Hebreus tenha sido uma tradução para o aramaico/hebraico dos ditos originais de Jesus (seguindo a forma dos antigos targums), e não um original propriamente dito deste (assim como a Peshitta é uma tradução de manuscritos gregos, por exemplo), ainda assim o trecho da oração do Pai Nosso, supõe-se, teria sido preservado como originalmente fora recitado por Jesus, por causa da sua extensa utilização e inserção na liturgia cristã desde as primeiras comunidades. É só lembrarmos, por exemplo, que isso ocorre também com  os textos gregos  do Novo Testamento que possuímos, onde expressões em aramaico/hebraico originais, também utilizadas extensamente pelas primeiras comunidade de cristãos, foram preservadas neles. Entre estas expressões, estão Abba (אבא - "Óh Pai!" - Rm 8:15), Maran atha (μαραναθα - מרן אתא - "Óh Nosso Senhor! Vem!" - I Co 16:22), Hosana (הושע נאת, hoshá ná, "Salva-nos agora!" - Mt 21:9) etc. Por isso, é bem provável que a palavra mahartenha sido a palavra original que posteriormente fora traduzida para o grego como epioúsia, mas que nos foi transmitida por Jerônimo, pelas vias da tradição hebreu-cristã da Terra de Israel que hoje é desconhecida por nós. Se levarmos em conta tudo isso, juntamente com algumas evidências como a antiga tradução cópita mostrada acima, poderemos aceitar a citação de Jerônimo, que advoga sermahar a palavra original nesta passagem do Pai Nosso, como plausível e confiável!

Desse modo, poderíamos reler o trecho do Pai Nosso desta forma: "o pão nosso de amanhã dai-nos hoje". Este entendimento do versículo é bem mais lógico e condizente com o contexto dos ditos de Jesus. Nosso Senhor ensinou os seus discípulos a orarem pedindo a Deus a aproximação da vontade Dele e de Seu Reino escatológico para a realidade simples e diária (o "hoje" deles). 

  • O Maná que nos traz Vida

Maná caindo do céu para aos israelitas (iluminura medieval do séc XIII).
Pensando de forma mais profunda (num linguajar judaico, maismidráshica!), se realmente Jesus disse de o pão de amanhã, como discutimos aqui, talvez também estivesse fazendo alusão ao Maná que caia em porção dobrada na sexta-feira para que o povo descansasse no Shabat (Ex 16:4-5). Talvez Jerônimo esteja emitindo uma antiga interpretação cristã sobre esta expressão: Jesus queria ensinar que o Pão da Vida - que é a Palavra de Deus (conforme sua resposta a Satanás no deserto, em Mt 4:4) e também Ele mesmo, como a Palavra de Deus em carne, viva (Jo 6:48) - não é algo que aquele que Lhe segue experimentará, e viverá por seu sustento, somente em um Reino distante, cujo cumprimento será no cataclismo dos tempos. Não! Ele estava também ensinando  que quem provasse de Suas Palavras e estivesse se sustentando Dele mesmo, como se sustenta com pão ou como os israelitas se sustentaram com o Maná no deserto, experimentaria a Eternidade desde agora.

  • Sinais da Ressurreição de em Cristo

Tomo aqui esta interpretação expandida e vou mais além. Jesus disse que alguns sinais acompanhariam aqueles que cressem Nele. Perceba: a maioria destes sinais são para que a morte fosse retardada, apontando para a Eternidade que temos já no Senhor (Mc 16:17-18 - "E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.). 

Afresco da Igreja do São Salvador em Chora, Turquia.
Por isso também que Paulo, mais tarde, entenderia a nossa conversão e permanência em Jesus como uma experimentação da nossa própria Ressurreição, que teria a sua concretização final no futuro. Vejamos a seguinte passagem em Colossenses onde ele expõe isso:

"Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória." (Colossians 3:1-4 )
 
Em uma outra passagem, Paulo afirma que a ressurreição de Jesus é a primícia, a antecipação, de outras futuras, as dos crentes (I Co 15:23). Mas aqui, Paulo começa afirmando que isso que ocorreria no futuro já ocorreu, isto é, já ressuscitamos com Cristo! O próprio Jesus indicara isso também quando disse que todos aqueles que cressem Nele, já viveriam os benefícios da Ressurreição e do Reino de Deus em seu tempo presente (Jo 5:24-26 - "[...] quem crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. [...] vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão." - grifo meu). O Apóstolo continua na passagem acima dizendo que, se estamos ressurretos em Cristo, precisamos buscar as coisas da realidade de Deus, que é "de cima", em contraste com "da terra", isto é, uma realidade sem o Reino de Deus sobre ela. Ele então conecta esta realidade já presenciada pelos crentes em Cristo com uma manifestação plena e final, ressurgindo corporalmente após mortos, na glória, de Cristo, por ocasião de Sua vinda (algo expresso também em I Ts 4:16-18).

O entendimento acima é o mesmo que rodeia às prescrições em relação à Ceia do Senhor, onde o elemento do pão é um dos seus componentes, em I Co 11. Todas as vezes que participamos da Ceia, nos tornamos participantes, de forma atemporal, do momento em que Cristo se preparava para entregar Sua própria vida em nosso favor e de Sua morte e ressurreição também. Por isso Paulo alerta aqui também o cuidado que o homem deveria ter em se examinar antes de tomar da ceia. Se o homem tomasse indignamente o cálice e o pão, ocorreria então o contrário do que estes elementos aludem: a atração da morte. É por isso que ele diz que muitos estavam padecendo de enfermidade e até mortos, pois não tinham discernido este quadro restaurador do homem em Cristo que a Ceia representa (I Co 11:30).

O Evangelho é isso: Deus, em Seu infinito amor, entrega Seu Filho para morrer e então resgatar dos grilhões do pecado aqueles que Nele cressem (Jo 3:16). A estes, o caminho a Deus estaria aberto e livre, e uma comunhão plena entre  o Deus Eterno e Santo e eles seria possível (Hb 10). Então, algo maravilhoso ocorre após isso: a obra de Redenção de Cristo quebra as barreiras temporais e geográficas, e o longínquo Reino de Deus, quando todos de todas as nações conheceriam a Deus e seriam plenos Nele (época vislumbrada pelo profeta Jeremias, conforme Jr 31:31-34) pode ser experimentado na vida de cada um de nós hoje, crentes Nele, e expandido onde quer que formos (Cl 1:23-29). Podemos implantar o Reino de Deus aqui, "puxá-lo" de cima, dos Céus, para a Terra, como Jesus nos ensinou a orar e pedir ao Pai! Aleluia!

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