Pular para o conteúdo principal

Desabafo de um professor de Teologia sobre "levitas", "apóstolos" e outros modismos

Via Carlos Cunha no facebook/carlos-cunha

Sou um professor de Teologia em crise. Não com minha fé ou com minhas convicções, mas com a dificuldade que eu e outros colegas enfrentamos nos últimos anos diante dos novos seminaristas enviados para as faculdades de teologia evangélica. Tenho trabalhado como professor em seminários evangélicos presbiterianos, batistas, da Assembléia de Deus e interdenominacionais desde 1991 e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de vocacionados como nos últimos três anos.

No início de meu ministério docente, recordo-me que os alunos chegavam aos seminários bastante preparados biblicamente, com uma visão teológica razoavelmente ampla, com conhecimentos mínimos de história do cristianismo e com uma sede intelectual muito grande por penetrar no fascinante mundo da teologia cristã. Ultimamente, porém, aqueles que se matriculam em seminários refletem a pobreza e mediocridade teológica que tomaram conta de nossas igrejas evangélicas.

Sempre pergunto aos calouros a respeito de suas convicções em relação ao chamado e à vocação. Pois, outro dia, um calouro saiu-se com a brilhante resposta: "Não passei em nenhum vestibular e comecei a sentir que Deus impedira meu acesso à universidade a fim de que eu me dedicasse ao ministério". Trata-se do mais típico caso de "certeza da vocação" adquirida na ignorância.

E, invariavelmente, esses são os alunos que mais transpiram preguiça intelectual.
A grande maioria dos novos vocacionados chega aos seminários influenciada pelos modismos que grassam no mundo evangélico. Alguns se autodenominam "levitas". Outros dizem que estão ali porque são vocacionados a serem "apóstolos".

Ultimamente, qualquer pessoa que canta ou toca algum instrumento na igreja se autodenomina "levita". Tento fazê-los compreender que os levitas, na antiga aliança, não apenas cantavam e tocavam instrumentos no templo, como também cuidavam da higiene e limpeza do altar dos sacrifícios (afinal, muito sangue era derramado várias vezes por dia), além de constituírem até mesmo uma espécie de "força policial" para manter a ordem nas celebrações. Porém, hoje em dia, para os "novos levitas", basta saber tocar três acordes e fazer algumas coreografias aeróbicas durante o louvor para se sentirem com autoridade até mesmo para mudar a ordem dos cultos.

Outros há que se auto-intitulam "apóstolos". Dentro de alguns dias teremos também "anjos", "arcanjos", "querubins" e "serafins". No dia em que inventarem o ministério de "semi-deus", já não precisaremos mais sequer da Bíblia.

Nunca pensei que fosse escrever isso, pois as pessoas que me conhecem geralmente me chamam de "progressista". Entretanto, ultimamente, ando é muito conservador. Na verdade, "saudosista" ou "nostálgico" seriam expressões melhores.

Tenho saudades de um tempo em que havia um encadeamento lógico nos cultos evangélicos, em que os cânticos e hinos estavam distribuídos equilibradamente na ordem do culto.
Atualmente, os chamados "momentos de louvor" mais se assemelham a shows ensurdecedores ou de um sentimentalismo meloso.

Pior: sobrepujam em tempo e importância a centralidade da Palavra e da Ceia nas igrejas protestantes. Muitas pessoas vão à igreja muito mais por causa do "louvor" do que para ouvir a Palavra, que regenera, orienta e exige de nós obediência. Dias atrás, na semana da Páscoa, comentei com um grupo de alunos a respeito da liturgia das "sete palavras da cruz" que seria celebrada em minha igreja na sexta-feira da Paixão. Alguns manifestaram desejo de participar. Eu os avisei, então, que se tratava de uma liturgia que dura, em média, uma hora e meia, durante a qual não é cantado nenhum hino (pelo menos na tradição de minha igreja - Anglicana), mas onde lemos as Escrituras, oramos e meditamos nas sete palavras pronunciadas por Cristo durante a crucificação. Ao saberem disso, um deles disse: "Se não houver música, não há culto".

Creio que, em parte, isso é reflexo da cultura pop, da influência da "Geração MTV", incapaz de perceber que Deus pode ser encontrado também na contemplação, meditação e no silêncio. Percebo também que alguns colegas pastores de outras igrejas freqüentemente manifestam a sensação de sentirem-se tolhidos e pressionados pelos diversos grupos de louvor. O mercado gospel cresceu muito em nosso país e, além de enriquecer os "artistas" e insuflar seus egos, passou a determinar até mesmo a "identidade" das igrejas evangélicas. Houve tempo em que um presbiteriano ou um batista sabiam dar razão de suas crenças.

Atualmente, tudo parece estar se diluindo numa massa disforme. Trata-se da "xuxização" ("todo mundo batendo palma agora... todo mundo tá feliz? Tá feliz!") do mundo evangélico, liderada pelos "levitas" que aprisionam ideologicamente os ministros da Palavra. O apóstolo Paulo dizia que a Palavra não está aprisionada. Mas, em nossos dias, os ministros da Palavra estão cativos da cultura gospel.

Tenho a impressão de que isso tudo é, em parte, reflexo de um antigo problema: o relacionamento do mundo evangélico com a cultura chamada "secular". Amedrontados com as muitas opções que o "mundo" oferece, os pais preferem ter os filhos constantemente sob a mira dos olhos aos domingos, ainda que isso implique em modificar a identidade das igrejas. E os pastores, reféns que são dos dízimos de onde retiram seus salários, rendem-se às conveniências, no estilo dos sacerdotes do Antigo Testamento.

Na maioria dos Seminários hoje, os alunos sabem o nome de todas as bandas gospel, mas não sabem quem foi Wesley, Lutero ou Calvino. Talvez até já tenham ouvido falar desses nomes, mas são para eles como que personagens de um passado sem-importância e sobre o qual não vale a pena ler ou estudar.

Talvez por isso eu e outros colegas professores nos sintamos hoje em dia como que "falando para as paredes". Nem dá gosto mais preparar uma aula decente, pois na maioria das vezes temos sempre de "voltar aos rudimentos da fé" e dar aos vocacionados o leite que não recebem nas igrejas. Várias vezes me vi tendo que mudar o rumo das aulas preparadas para falar de assuntos que antes discutíamos na escola dominical. Não sei se isso acontece em todos os seminários, mas em muitos lugares, o conteúdo e a profundidade dos temas discutidos pouco difere das aulas que ministrávamos na Escola Dominical para neófitos.

Sei que muitos que lerem esse desabafo, não concordarão em nada com o que eu disse. Mas não é a esses que me dirijo e, sim, aos saudosistas como eu, nostálgicos de um tempo em que o cristianismo evangélico no Brasil era realmente referencial de uma religiosidade saudável, equilibrada e madura e em que a Palavra lida e proclamada valia muito mais que o último CD da moda.

O Rev. Calvani é o coordenador do Centro de Estudos Anglicanos de Londrina, PR

Comentários

Anônimo disse…
caro rev calvani tenho 59 anos adoro ler leio de tudo e de tudo eu sempre tiro proveitos de informacoes contidos em livros estudo a biblia sozinho quando tenho duvidas vou na internete abaixo os livro os texto em duvidas e leio releio e faco as minhas deducoes deixei de ser vinculados a qusalquer religiao pois eu tenho que pensar como eles e eu estou sempre acrecentado conhecimento as vezes eu sinto necessidade de conversar sobre a biblia pois as pessoas so aceitao o que o pastores dizem muita paz

Postagens mais visitadas deste blog

A COSMOGONIA BÍBLICA/ A CRIAÇÃO

A cosmogonia trata da origem e da evolução do universo, ou seja, sua função é descobrir como surgiram a terra e os demais planetas e astros. Vamos ver como  as pessoas da antiguidade encaravam a questão da origem do universo. a) Acadianos, sumérios e babilônios Os povos que habitava a antiga mesopotâmia, elaboraram uma teoria composta entre o terceiro e o segundo milênio antes de Cristo diz que os deuses travaram batalhas com as forças desagregadoras. Destas lutas teriam surgido os céus, a terra, o mar, os animais e o ser humano. b) Gregos Mais desenvolvidos cientificamente que os povos da antiguidade, tiveram vários filósofos com diferentes posicionamentos. * Anaximandro – ensinava que o mundo teve origem de uma substância indefinida: apeíron, em grego, sem fim. * Tales de Mileto – segundo ele tudo veio da água. Foi levado a ter este posicionamento depois de verificar a presença da água em todas as coisas. * Anaxímenes de Mileto – afirmava ser o ar o princípio de tudo. Argumentava que tudo d…

PORQUE ESTUDAMOS GEOGRAFIA BÍBLICA

O homem tem uma necessidade muito forte de determinar uma concepção de espaço. Por isso sempre pergunta: onde exatamente se deu este fato? Onde começou? E onde será o término de tudo? Para responder estas questões precisamos unir ao estudo da história, o estudo da Geografia, situando cada fato em seu respectivo contexto, buscando informações em cada sítio arqueológico, teremos uma idéia ampla e clara do habitat bíblico. Atualmente a Geografia não se limita apenas a descrever lugares, climas, vegetações, hidrografias; propõe-se a explicar os fatos e suas diversas relações. Podemos então definir Geografia como descrição sistemática e ordenada da superfície da terra e meio de pesquisa das relações entre o meio natural e os diversos grupamentos humanos. O estudo da Geografia Bíblica permite o conhecimento das diferentes áreas da terra relacionadas com os fatos narrados nas Escrituras, dando-lhes mais consistência e autenticidade, auxiliando na interpretação e compreensão dos fatos bíblicos, d…

Macabeus, sua história, conquistas e a Festa de Chanuká (Dedicação)

Maria Dolores Moreira
Alexandre, o Macedônio, após vencer Dario rei dos persas e dos medos tornou-se rei em seu lugar e a partir de então empreendeu numerosas guerras avançando às extremidades da terra submetendo assim nações, províncias e soberanos os quais se tornaram seus tributários. Depois disto Alexandre adoeceu e percebendo que iria morrer convocou seus oficiais e nobres que com ele conviveram desde sua mocidade e repartiu entre eles seu império. Cada qual se apossou do que recebera e sucessivamente seus respectivos filhos. De um deles originou Antíoco Epifanes. Este quando se viu consolidado em seu trono, resolveu também apoderar-se do Egito a fim de reinar sobre dois reinos, travou batalha contra Ptolomeu o qual recuou e fugiu. Vencendo porém o Egito no ano 143 AC, em sua volta subiu contra Israel e Jerusalém.  Entrou porem com arrogância no Santuário e tomou seus utensilios sagrados, partindo assim para seu país. Por este motivo um grande clamor foi levantado em toda nação de I…